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Por um pouco de ousadia
“Na dúvida, use um pretinho básico”. Quem nunca ouviu ou leu esta expressão delicadamente autoritária e a julgou perfeitamente coerente? Dirijo-me principalmente ao público feminino, não porque homem não possa usar um pretinho básico, mas porque geralmente as mulheres têm mais dúvida quanto a que roupa usar. Outra dica de ouro, já cristalizada no nosso repertório ideológico é: “em casamentos, só a noiva deve vestir branco”. E tal enunciado guarda em si duas leis incorruptíveis: a noiva sempre veste branco, e os convidados, nunca. Mas aí surge um probleminha: riscando o branco da paleta, sobram muitas opções de cores a serem usadas pelos padrinhos, pelos irmãos do noivo, pelo amante dele ou pelo penetra. Mas o que pensar de uma convidada lindíssima por natureza (mais bonita inclusive do que a noiva), que decide usar um vestido arrogantemente vermelho? Seria a encarnação perfeita do diabo, o adultério em pessoa ali, no fundo da igreja, tentando, coitada, esconder-se por ser a única Ferrari estacionada. Ou o que dizer, então, da mãe da noiva, trajando um longo vestido roxo? Péssimo tom, primeiro porque estaria cinicamente concorrendo com o padre o qual, por alguns instantes, esforça-se em vão para prestarem atenção em si. Segundo, pois roxo é cor de tragédia, de mau agouro, e não cai nada bem a própria mãe trazer tão maus fluidos à filha. Deixe isso para os amigos. Azul, verde, bege... Ainda assim o universo cromático restante é grande e, ao contrário de ser uma boa notícia, esta conclusão somente aguça mais ainda o embaraço e a ansiedade. Nossa querida indecisa, por fim, esperta como ela é, vai à primeira dica que comentamos mais cedo: trata de comprar um belíssimo vestido negro cintilante; e fica satisfeitíssima já que, apesar do brilho e do glamour, ela sabe que aquilo é um pretinho básico. Imaginemos, porém, minhas amigas leitoras, que este mesmo pensamento, por uma inspiração do acaso, passa pela cabeça de todas e de todos (lembrando que os cavalheiros se resolveram desde o início). Imaginemos ainda a noiva , feliz e ingênua, adentrando os umbrais da igreja e vendo, fileira por fileira, enormes tarjas pretas. Logo ela sente que arrasta não a cauda de um vestido, mas o seu próprio corpo dentro de um caixão e que o véu é na verdade a neblina das almas. Procura por todos os lados a visão alegradora do dourado, do cinza, do vermelho, do branco, do roxo até. E nada. Somente o padre à frente do altar, esperando-a para destinar seu espírito ao descanso eterno, ao lado daquele que era seu grande amor em vida, e que agora viverá em perene luto. Para uma situação aterradora como esta, caras senhoras, há, porém algumas soluções. Primeiro: lembrem-se que as chances de uma coincidência como essa são remotas, a pesar da mordaz ironia da vida. E mais: quando tudo parece completamente perdido, vale sempre atentar para o divino alerta da sacerdotisa Constanza Pascolato: “Há pretinhos e pretinhos”. O que quer que isso signifique.
Escrito por Isac Tufi às 00h11
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Reflexões sob(re) a chuva
Porque há a chuva, existem também os guarda-chuvas, as capas-de-chuva, os antigripais, a vitamina C. Mas não é contra a chuva que tentamos nos proteger. A chuva apenas nos adverte que de nada adianta querer fugir dos ditames sociais, romper definitiva e radicalmente com as instituições; nem mesmo sonhar adianta. O destino de tais débeis tentativas é a queda, e daí a automática reprodução de ciclos. Essa é a verdadeira frustração que nos impõe um dia de chuva.
Por isso que a imagem de alguém correndo debaixo do temporal e encharcando-se todo feito criança nos deixa tão assustados e invejosos.
Escrito por Isac Tufi às 19h44
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